Muitos segredos ainda ficarão escondidos nos bastidores do poder que se instalou na República. O silêncio de muitos favorecidos pelas benesses manterá a verdade longe dos olhos da sociedade brasileira.

Roberto Jeferson, que se imolou em praça pública, com ódio de seus parceiros que o traíram na divisão do botim, poderá se ver livre da prisão por sua ação denunciadora do maior golpe já descoberto no país. Roberto foi político de primeira linha e cumpridor de seus compromissos com seus aliados. Repudiado pelo poder, abriu a boca e falou. A sua fala derrubou mais gente do que se pensava inicialmente, mas, infelizmente encobriu alguns que, com certeza, seriam, também, punidos. Um dia, porém, serão desmascarados. Não passarão!

Nas redes sociais, que esmiúçam tudo encontram-se pessoas que ficam indignadas com argumentos de que as penas máximas devem ser aplicadas aos crimes de sangue e não aos crimes dos condenados no julgamento da Ação Penal 470, do Supremo Tribunal Federal.

Os participantes das redes e os blogueiros em geral argumentam que as roubalheiras praticadas contra os cofres públicos matam mais que os criminosos comuns, pois deixam sem socorro milhões de brasileiros enfermos não atendidos pela rede púbica de saúde. Além disso, tiram recursos da educação e da segurança pública. É uma visão que deve ser examinada pelas autoridades.

Costa-Gravas, o cineasta que denunciou em seus filmes os horrores da guerra, em 1989, dirigiu o filme “Music Box”, título que foi modificado para o português para  "Muito mais que um crime”. A versão em inglês é sofisticada, pois se refere a uma caixa de música que esclarece o mistério da vida de um húngaro que fugiu para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

A protagonista do filme é Jessica Lange em interpretação genial de uma advogada criminal de Nova York, cujo pai é acusado de crimes de guerra. Ann Talbot, a personagem, se sobressai nos tribunais pela sua capacidade de convencimento da inocência de seus clientes.

Certo dia, seu pai, Michael Laszlo, é intimado a comparecer perante o Ministério Público para se defender da acusação de crimes cometidos contra a população civil. O pai, assustado com a acusação, exige que a filha o defenda. Ela fica na dúvida, mas, por não acreditar na participação do pai em atrocidades durante a guerra, aquiesce e se apresenta como sua defensora. O promotor, duríssimo, fala do processo que estava entre tantos outros nos porões da ONU. O acusado, inquirido, reage com impropérios às perguntas.

Ann decide examinar os depoimentos de testemunhas sobre os acontecimentos e não acredita que seu pai possa ser a pessoa cruel que fuzilou um homem pelas costas com um tiro na nuca. Em outro depoimento, outras pessoas relatam o assassinato de uma mãe e seu filho em plena via pública. Por fim, vários depoimentos acusam o húngaro de matar civis inocentes e jogá-los no rio, a ponto de deixar suas águas tingidas de vermelho.

O acusado, Michael J. Laszlo, é submetido ao júri e confrontado com as testemunhas. Fotografias do rosto do acusado e seus companheiros são expostas. Algumas testemunhas o reconhecem, outras não. Ann desenvolve o seu trabalho e consegue refutar cada acusação. Afinal, uma testemunha deve ser ouvida na Hungria. O juiz e seus assessores seguem para a oitiva do homem que está à beira da morte. O depoimento é imprestável para confirmar as acusações.  O pai é inocentado por falta de provas.

Na viagem, Ann descobre a irmã de um dos participantes dos crimes e vai visitá-la. A mulher entrega à advogada um recibo de penhor e pede que ela resgate uma caixa de música que o irmão deixara para ela.

Ann resgata a caixa de música e é surpreendida com fotografias que saem do fundo, quando o rolo de música se movimenta. São fotografias que comprovam os crimes praticados por seu pai. Desiludida, Ann entrega as provas ao ministério público que pede a reabertura do caso.

Costa-Gravas, em seu filme, demonstra que, quando menos se espera, vem à tona a verdade sobre os mistérios escondidos nos subterrâneos do poder.

Brasília, 29 de outubro de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista Brasília em Dia – 02.11.2012 – www.brasiliaemdia.com.br

Autorizada a publicação – www.blogpaulocastelobranco.com.br