"Todos estes que ai estão
Atravancando o meu caminho.
Eles passarão.
Eu passarinho!"
Poeminho do Contra – Mario Quintana

O poeta Mario Quintana deve estar se debatendo em seu túmulo ao saber que o seu poeminho está sendo usado em vão.

No julgamento do “Mensalão do PT”, o Supremo Tribunal Federal tem oferecido, ao vivo, lições de Direito, Justiça e cidadania. Os réus, como no Tribunal do Júri, deveriam ser obrigados a comparecer às sessões e ouvirem o que dizem os juízes sobre os crimes de que são acusados.

O que se observa é que quase todos réus afirmam que não assistiram ao julgamento por saberem que as decisões são políticas e serão condenados.

Se assistissem aos votos que os condenam, os réus poderiam consultar seus advogados para melhor compreender as conclusões dos juízes.

Eles, réus e políticos experientes, sabem que o julgamento político ocorreu no Congresso Nacional que cassou o mandato de vários deles; ou, nas urnas, que deixou de fora outros tantos. Isto é julgamento político.

Com as condenações dos operadores do vergonhoso esquema de corrupção, ficou claro que os baluartes da ética e da democracia, para permanecerem no poder, fizeram o possível e o impossível para cooptar cúmplices na tarefa criminosa. Parece que só um deles sublimou a questão e se entregou, de corpo e alma, ao sacrifício da vida pública.

Um fato já perdido na história do país deve ser lembrado: O Partido dos Trabalhadores se posicionou contra o texto constitucional de 1988, como afirmou o então deputado Lula: “O partido vota contra o texto, e amanhã, por decisão do nosso diretório – decisão majoritária – assinará a Constituição, porque entende que é o cumprimento formal da sua participação nessa Constituinte”. Como se vê, os parlamentares do PT não aceitaram a constituição “Cidadã”, e só a assinaram por mera formalidade.

É esta constituição, aprovada pela maioria dos representantes do povo, que está em vigor e que garante a independência dos poderes, permitindo que o Poder Judiciário aplique as leis livremente.

É contra esta independência que se revoltam os condenados pela Suprema Corte. Os inconformados alegam inocência, apesar das contundentes provas apresentadas pelo Ministério Público Federal; o mesmo Ministério Público a quem os parlamentares do Partido dos Trabalhadores, tantas vezes,  recorreram para exigir ações contra adversários.

Nos tempos de oposição, era comum, em qualquer audiência pública ou sessões das comissões do Congresso Nacional, a entrada triunfal de parlamentares petistas apontando o dedo contra convocados ou convidados a prestar esclarecimentos sobre algum assunto. O inquirido era posto no pelourinho e massacrado. A imprensa livre era chamada a documentar a morte do passarinho sob a saraivada de pedras das baladeiras dos caçadores de reputações.

Os maiores argumentos usados em defesa dos condenados do “Mensalão do PT” foram palavras de poetas renomados ou não, além, é claro, de artistas populares que em suas letras ou falas servem para qualquer lado; basta usar os versos no momento adequado.

Mario Quintana, citado recentemente por um dos condenados, quando falou dos seus adversários no poeminho do contra, afirmou, com pureza d’alma, sobre vencer dificuldades e sobreviver. No caso do condenado, o verso não se lhe encaixa, pois não é um puro passarinho sobrevivente; é carcará.

Brasília,  15  outubro de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista Brasília em Dia – 19.10.2012 – www.brasiliaemdia.com.br