Uma dos maiores sonhos da minha turma de amigos na infância era ter uma bicicleta. Cada um desejava possuir a mais importante das marcas: Phillips. A bicicleta que chegava ao Brasil era preta, aro 28, equipada com quadro e farol acionado por uma bobina instalada no pneu dianteiro.

À época, morávamos num conjunto residencial cortado pela Avenida das Bandeiras, hoje extensão da Avenida Brasil. Os acidentes eram frequentes e os pais viviam preocupados com a nossa segurança.

Certo dia, sabe-se lá de onde, surgiu a bicicleta Phillips. A garotada correu para dar uma volta. Os pequenos colocavam as pernas entre o quadro e saiam desengonçados pelas ruas. Cada um podia andar, no máximo, cem metros e devia entregar a bicicleta para o próximo. O homem que trouxe a bicicleta era desconhecido de todos e, logo, correu o boato de que ele, com sua bicicleta, conquistava a confiança para roubar crianças para fazer linguiça. Corremos para casa com medo, mas felizes por, pelo menos, uma vez na vida, ter o prazer de montar numa bicicleta Phillips.

Estas recordações me vieram à mente ao ler matérias sobre o ciclista Lance Armstrong. Ele foi o maior campeão da mais importante prova do ciclismo mundial, a “Volta da França”, tendo ganhado sete vezes a disputa. Lance venceu, também, câncer no testículo, pulmão e cérebro, sendo admirado por seu destemor e desempenho após a cura.

O passado de Lance Armstrong era exemplar para jovens desejosos em fazer sucesso no esporte. Mas, o passado de um personagem nem sempre retrata a sua verdadeira história no presente.

A Comissão Médica da Agência Mundial, observando o comportamento do atleta, o investigou durante anos e chegou à conclusão de ele liderava uma equipe que se utilizava de sofisticada fraude para aumentar o desempenho dos ciclistas em provas oficiais.

Armstrong, segundo a Comissão Médica, liderava a US Postal Service Pro Cycling Team onde foi desenvolvida uma sofisticada técnica de doping, utilizando o próprio sangue do atleta. Parece que se tratava da retirada de sangue no ápice do treinamento; após, o sangue passava por reciclagem científica e reaplicado no atleta na véspera da competição. O sangue reciclado aumentava a absorção de oxigênio e a resistência à fadiga muscular, garantindo mais força e menos desgaste físico.

Lance Armstrong teve direito à defesa e disse que não irá se pronunciar sobre a celeuma. – É página virada, encerrou o atleta.

Por aqui, parece que as condenações aplicadas aos réus do “mensalão” não serão páginas viradas. A história deste julgamento marca um novo tempo na vida pública brasileira. O foro privilegiado, criado pelos próprios parlamentares para garantir julgamento justo na Suprema Corte, os surpreendeu pela coerência, independência e transparência.

Depois do julgamento e antes da declaração das penas impostas, os líderes da quadrilha perdem o equilíbrio e assacam impropérios contra a imprensa livre, os benditos blogueiros, os democráticos membros das comunidades sociais e o povo silente.

A vida pública não permite mais esquemas escusos. Os equipamentos sofisticados de gravação com som e vídeo andam nos bolsos de qualquer pessoa e podem transmitir flagrantes on line e com perfeição. Não há mais dúvidas. As provas, os testemunhos e a dedução lógica levam à condenação de réus até então com passado limpo e conduta ilibada. São desmascarados e, para se defender, agridem a inteligência dos eleitores quando pedem ajuda a suas famílias e amigos, querendo provar inocência. Só agravam a situação.

Os políticos, como os ciclistas, são observados em tempo integral, mesmo quando criam fórmulas secretas, e a vida pública é como andar de bicicleta; é preciso equilíbrio, senão o tombo é certo. O ideal é calar e cumprir a pena com dignidade.

Brasília, 22 de outubro de 2012.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista Brasília em Dia – 26.10.2012 – www.brasiliaemdia.com.br